sábado, 17 de janeiro de 2026

Nuremberg (2025)

 


Embora não esteja aparecendo muito nas premiações da temporada, tendo em vista o pesadelo laranja na casa branca, vale sim assistir porque afinal a cadela do fascismo está sempre no cio.

Prefiro pensar que o filme tem mais uma função didática que como entretenimento.

Caso não saiba, em Nuremberg foram julgados os principais líderes e colaboradores do regime nazista na Segunda Guerra Mundial. O tribunal foi formado por Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França. Além de documentar detalhadamente os horrores do Holocausto e outras violações sistemáticas de direitos humanos, o tribunal inaugurou princípios jurídicos que influenciariam diretamente a criação de cortes internacionais posteriores, como a de Haia.

Roteirizado e dirigido por James Vanderbilt, baseado no livro O Nazista e o Psiquiatra, de Jack El-Hai. A narrativa acompanha o psiquiatra americano Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, encarregado de avaliar a sanidade mental de 22 oficiais nazistas antes do julgamento, incluindo o vice de Hitler, Hermann Göring, interpretado por Russell Crowe. 

Bom elenco, Eu não curto muito o Malek como ator, na época de Bohemian Rapsody, curti muito mais o documentário The Great Pretender

Mas o Russel Crowe consegue encarnar um Goring assustadoramente carismático. Michael Shannon também está bem, como o promotor Robert H. Jackson.

O texto explora  os fatos históricos e os conflitos internos do protagonista, que se vê diante da tarefa moralmente perturbadora de compreender a mente de criminosos responsáveis por atrocidades indescritíveis. 

(Aqui no Brasil deve ter dezenas de médicos que passam por isso...)

Pelo que ví no youtube, a fotografia e cenários são bem precisos. A cidade de Nuremberg devastada pela guerra adiciona camadas visuais que ampliam o impacto emocional do filme. 

No YouTube há vários vídeos produzidos por canais especializados em cinema e história, que ajudam a compreender melhor o contexto real dos julgamentos de Nuremberg e como o filme adapta esses eventos. Algumas escolhas do diretor desviam da verdade histórica, confira no vídeo abaixo (não aparece o preview porque contem imagens dos campos de concentração):


Esse eu assisti depois do filme, é bem completo:


A 2a Guerra é fonte inesgotável para o cinema, entre os meus preferidos cito o vencedor no #oscar2024, que está resenhado aqui no blog:  Zona de Interesse (confiram na resenha o texto que eu trabalhava em sala na disciplina de Tecnologia do curso de Arquitetura).

Surfando na onda do oscar a Netflix lançou em 2024 o documentário Hitler and the Nazis, na fila.

Na lista com certeza entram também  A queda, A conspiração, Nunca deixe de lembrar, Bastardos inglórios.  Na dvdteca junto com os outros do Spielberg, tenho A lista de Schindler e O resgate do soldado Ryan  Aqui no blog tem várias resenhas que conectam com o tema: Collette, Jojo Rabbit, A tabacaria

E vale sempre lembrar do ótimo A onda.

Vide da temporada o 2000 metros para Andriivka

Nota 7, recomendo!

Disponivel prime video (com VPN).

Prime Video: Nuremberg

Nuremberg (2025) - IMDb


domingo, 11 de janeiro de 2026

Sonhos de trem (2025)



Filme bonito, leve, bela fotografia - trabalho do brasileiro Adolpho Veloso!

Indicado a melhor ator e canção original no #Globodeouro2026

Produção Netflix, roteiro adaptado. 

Acompanha cerca de 80 anos na vida de Robert Grainier, desde o final do século XIX até o final dos anos 1960. Um lenhador que atravessa décadas de transformações sociais e tecnológicas nos Estados Unidos. A narrativa se desenvolve de forma fragmentada, como lembranças que se sobrepõem ao longo da vida do protagonista, desde sua juventude nas ferrovias até a velhice solitária, revelando como ele testemunha, de longe, o avanço tecnológico, a transformação das paisagens naturais e o desaparecimento de tudo o que um dia lhe foi familiar. Entre memórias fragmentadas, sonhos com locomotivas e encontros com personagens fantasmagóricos que cruzam seu caminho, o filme constrói um retrato sensível de um homem simples tentando compreender seu lugar em um mundo que muda rápido demais. 

De um certo ponto de vista tem até uma mensagem ecológica.

O principal Joel Edgerton é o mesmo da ótima série Matéria Escura, que sempre comento aqui no blog. 

Elenco no padrão netflix, com o William Macy e a ótima Kerry Condon, por coincidência ontem mesmo comentei o F1, onde ela também atuou nessa temporada. 

A fotografia é, sem dúvida, o ponto alto do filme. Adolpho Veloso cria imagens que combinam imponência natural, textura documental e poesia visual. Reforçaa relação entre homem, natureza e máquina, especialmente nos sonhos que dão nome ao filme. 

A trilha sonora assinada por Bryce Dessner também é linda. Escute no link abaixo, a última é a canção que concorre ao Globo de Ouro.

YouTube Music

Não gostei muito do roteiro e montagem, da metade para frente tive um pouco de dúvida com as passagens temporais e a forma como as tecnologias vão sendo mostradas. Na cena da filha que retorna boiei totalmente e o roteiro deixa aberta.

É diferente, mas me lembrou A metamorfose dos pássaros. Outro parecido é o First CowA rusticidade é a mesma do Anêmona

Não é tããão passional mas também tem a mesma vibe de Lendas da Paixão

Nota 7. Recomendo.

Confira Sonhos de Trem | Site oficial da Netflix

Sorry, baby (2025)

 


Ótimo filme indie, distribuído pela A24, indicado a câmera de ouro, palma queer e escolha da audiência na quinzena de diretores em #Cannes2025.

Indicada a melhor atriz no #Globodeouro2026 [é hoje!...].

Indicado ao grande prêmio do juri e vencedor do prêmio Saldo Salt em #Sundance2025.

Premiado também na Mostra de SP.

Eva Victor, diretora estreante em longa, roteirista e atriz vem surgindo como uma das vozes mais promissoras do cinema independente contemporâneo.

Coloquei o Boys go to jupiter na fila. 

A narrativa acompanha Agnes, uma professora universitária que tenta reconstruir sua vida após um evento traumático que marcou sua pós-graduação. É sobre  o mundo que segue em frente enquanto a vítima permanece presa ao impacto do ocorrido. Nessa jornada ela é acompanhada pela amiga Lydie, que se casa e tem um bebê.

O filme  combina humor ácido e sensibilidade emocional e impressiona pela segurança narrativa e pelo domínio do tom. Explora temas como estresse pós-traumático, culpa, isolamento, dificuldade de comunicação e a necessidade de ressignificar a intimidade e a verdade emocional dos personagens. O humor surge como mecanismo de defesa, e o filme utiliza essa ferramenta com inteligência, sem desrespeitar a gravidade do tema. É um roteiro que entende que a cura não é linear e que, muitas vezes, o processo é feito de pequenos passos, recaídas e descobertas silenciosas.

Maturidade rara para uma diretora estreante, construindo um filme que é ao mesmo tempo pessoal e universal, doloroso e acolhedor, simples e profundamente humano. Prova que o roteiro não precisa de grandes reviravoltas para ser impactante.

Para não dar muito spoiler, vou adiantar só que o abuso sexual acontece em um ambiente acadêmico.

Me remeteu ao ótimo Lady Bird e A filha perdida

Nota 8, recomendo!

Disponivel nos sreamings.

Sorry, Baby (2025) - IMDb

A velha com a faca (2025)


Geralmente os títulos traduzidos em português ficam terríveis, mas esse não.

Desde o Chick Norris que os vovôs bravos fazem sucesso, passando por  Bruce Willis, Nicolas Cage e Liam Neeson. não tenho certeza se faz bem colocar uma mulher nesse lugar... assistam e comentem...

Produção coreana, roteiro adaptado, acompanha Hornclaw, uma assassina veterana que, aos sessenta anos, enfrenta o desgaste físico e emocional de décadas de violência. 

A trama mostra sua estreia ainda jovem matando um soldado americano em legítima defesa. e sua formação dentro de uma organização clandestina que se apresenta como empresa de “controle de pragas”. Ela precisa lidar com um assassino novato na empresa que se julga melhor que ela. A estrutura narrativa vai alternando entre passado e presente.

Não foge ao clichê ação / solidão / redenção, nem ao exagero nas cenas.

O maior pecado é não explorar sequer os bons arcos dos personagens secundários.

Tem alguns desse gênero resenhados aqui no blog: Trem balaAnônimo (que inclusive está com uma continuação que ainda não vi) , Wrath of men, No sudden move, O protetor

Nota 6, recomendo só para quem gosta de filme em que os vilões tem pontaria péssima. 

https://www.imdb.com/pt/title/tt34509472/



sábado, 10 de janeiro de 2026

Jay Kelly (2025)


Comparado com os quatro anteriores do diretor Noah Baumbach, que estou sempre elogiando aqui no blog, decepcionou bastante, mas não é ruim.

Não é tão bom como Barbie, o ótimo Ruído Branco, História de um casamento ou Os Meyerovitz

Filme de ator, George Clooney indicado para melhor ator e Adam Sandler para coadjuvante no #Globodeouro2026, mas eu acho que justifica só o segundo, pois ele rouba a cena, com uma das melhores atuações da carreira. Eu sempre acho ótimo quando ele faz papéis mais dramáticos como em Jóias Brutas. 

O roteiro acompanha a jornada de Jay Kelly seu empresário Ron e uma entourage que vai se desfazendo aos poucos, numa viagem pela Europa enquanto Jay tenta se reaproximar da filha e confrontar os danos que sua carreira causou em sua vida pessoal. O personagem é um homem quebrado, incapaz de lidar com os próprios erros e com a distância que criou entre si e sua família. 

O elenco conta também com a experiente Laura Dern, favorita do David Lynch.  Mas ao contrário dos anteriores esse não conseguiu aproveitar todo o potencial de suas estrelas. Fica no padrão netflix de elenco caro e roteiro mais ou menos.

Nota 7, em homenagem ao Adam Sandler.

https://www.imdb.com/pt/title/tt30446847/

F1 (2025)


Filme de fórmula 1 produzido pelo Lewis Hamilton que faz uma ponta vaidosa e pelo Brad Pitt.

Na hora lembrei do filme do Pelé com o Sylvester Stalone Fuga para a Vitória só que 40 anos atrás não eram os atores que produziam.

Você já viu esse filme dez vezes, mas vai gostar assim mesmo. 

Mais clichê que esse roteiro e narrativa só o algoritmo da rede social que te mostra o que você quer comprar.

100% previsível, com rivalidade, heróis e vilões corporativos, romance e aquele arco batidinho de redenção, tudo muito bem feito.

Mesmo assim foi indicado a melhor roteiro e melhor bilheteria no #Globodeouro2026.

O diretor Joseph Kosinski é o mesmo de Top Gun: Maverick e Oblivion, ou seja, acostumado a filmar blockbuster de ação / velocidade. 

Igualmente o elenco funciona como um relógio. O principal é o Brad Pitt, com um bom timing com o Javier Barden e com a ótima Kerry Condon. 

Boa trilha sonora selecionada, com clássicos do rock, p. ex. Led Zepellin.

Dos dez que vc já viu, tem alguns aqui no blog: FerrariFord vs Ferrari, Logan lucky.

Nota 8, não esqueça a pipoca.

Disponível nos streamings.

https://www.imdb.com/pt/title/tt16311594/ 

Morra, amor / Dye my love (2025)

 


Indicado a palma de ouro em #Cannes2025 e melhor atriz no #Globodeouro2026.

Os anteriores da diretora Lynne Ramsay, Precisamos Falar Sobre o Kevin e Você Nunca Esteve Realmente Aqui ainda estão na minha fila.  

Tenso, trágico e até um pouco desconfortável de assistir, combina bem com um outro dessa temporada: Se eu tivesse pernas eu te chutaria. 

Roteiro adaptado. A trama acompanha Grace, uma jovem mãe que enfrenta depressão pós-parto e psicose, e que vê sua vida conjugal e sua própria identidade se fragmentarem. A narrativa é construída de forma não linear, com saltos temporais e momentos de delírio que confundem realidade e imaginação, em uma imersão na mente de uma mulher à beira do colapso. 

O filme é meio sensorial, roteiro não linear e aberto, muitos pequenos detalhes, mesmo prestando atenção é difícil captar tudo. A própria diretora tem falado que reduzir os temas dele à depressão pós parto é superficial. Muitos simbolismos visuais, ritmo fragmentado e foco experiência interna da personagem.

Aliás tem um parecido com a mesma atriz Jennifer Lowrence - Mãe! do Aronofski, que também é difícil de classificar. Lembra um pouco também outros do Aronofsky, David Lynch e Lars von Trier. 

A deterioração psicológica da protagonista é explorada com uma câmera inquieta, claustrofóbica e profundamente subjetiva, em um ambiente rural opressivo, onde a paisagem funciona como extensão do estado mental da personagem, reforçando a sensação de isolamento e desespero. 

Pode ser que renda uma indicação para a atriz no #oscar2026. Ela está bem visceral no filme, consegue entregar  fragilidade, fúria, erotismo, desespero e momentos de lucidez dolorosa. 

O para sempre vampiro Robert Pattinson também está bem de coadjuvante, interpretando o marido que tenta lidar com a deterioração mental da esposa enquanto enfrenta seus próprios conflitos. O elenco de apoio inclui Nick Nolte e Sissy Spacek. 

A fotografia segura o filme, mais que o roteiro. O filme no geral é escuro, com sombras densas e composições que reforçam a sensação de aprisionamento emocional da protagonista, elementos que sxão reforçados pelo design de som.

A trilha sonora selecionada é bem bacana, tem até o Cocteau Twins! 

Nota 6. Acho muito difícil o grande público gostar... recomendo só para quem curte roteiros delirantes.

Tanto que ficou no cinema pouco tempo, está prestes a estrear nos streamings.

Morra, Amor (2025) - IMDb

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

20 dias em Mariupol + 2000 metros para Andriivka

  

A necrogeopolítica está bombando... desde sempre.

Nesta semana os EUA invadiram a Venezuela. E vai deixar a Rússia continuar na Ucrânia...

O diretor Mstyslav Chernov quando ganhou o  #oscar2024 falou que não queria ter filmado esse filme e foi mais que assertivo.

Eu ainda não tinha visto e como o outro está cotado, assisti os dois juntos.

Ambos são importantes, mas o primeiro é essencial, soco no estômago.

Chernov utiliza sua experiência como jornalista da Associated Press para construir um relato visceral dos primeiros dias do cerco russo à cidade portuária de Mariupol. O filme faz uma abordagem direta, sem filtros, que coloca o espectador dentro do caos urbano, com imagens captadas em tempo real durante o colapso da cidade. Os protagonistas são civis, médicos, jornalistas e vítimas da guerra, captados em momentos de desespero, coragem e vulnerabilidade.

Além de documentar os horrores da guerra em si, serve também como registro honestamente brutal do processo perigoso de enviar imagens para fora da zona quente. O roteiro  é estruturado como um diário de guerra, acompanhando os vinte dias em que Chernov e sua equipe ficaram presos na cidade sitiada. A narrativa se desenvolve a partir de imagens captadas no calor do conflito, mostrando hospitais lotados, civis desesperados, destruição urbana e a luta dos jornalistas para transmitir informações ao mundo antes que a cidade fosse completamente isolada. A força do filme está justamente na ausência de artifícios: sem reconstituições, sem entrevistas posteriores, apenas a realidade crua registrada no momento em que acontece. 

Em 2000 Metros para Andriivka o diretor retorna ao front, mas agora acompanhando soldados ucranianos em uma travessia de dois quilômetros até o vilarejo de Andriivka, em Donetsk, durante a contraofensiva de 2023. Utiliza câmeras corporais e equipamentos acoplados aos capacetes dos soldados, criando uma experiência quase em primeira pessoa o que para alguns jovens pode até parecer um videogame.

O segundo adota uma narrativa mais concentrada, acompanhando um único objetivo militar: entregar uma bandeira ucraniana a um sargento.  A travessia, que em condições normais levaria poucos minutos, transforma-se em uma jornada angustiante, marcada por explosões, tiros, drones e morte.  Não explica muito o contexto já mergulha direto o espectador na experiência dos soldados nas trincheiras. É louvável que o diretor seguiu com o mesmo ânimo, mas após quase quatro anos de conflito, faltou uma contextualização histórica mais ampla.

Confira aqui no blog a resenha de For Sama e The cave. 

Nota 9 e 6, respectivamente.

https://www.imdb.com/pt/title/tt24082438/

https://www.imdb.com/pt/title/tt34964205/



sábado, 3 de janeiro de 2026

A vizinha perfeita (2025)

 


Cotado para indicação de documentário no #oscar2026 venceu melhor diretora em #Sundance2025. 

Mostra um caso real ocorrido em 2023, na Flórida, envolvendo a morte de Ajike “AJ” Owens, uma mulher negra, mãe de quatro filhos, assassinada pela vizinha Susan Lorincz, uma mulher branca que alegou legítima defesa. 

O filme reconstrói o histórico de conflitos entre as duas desde 2022, destacando como denúncias infundadas, tensões raciais e a controversa lei estadunidense contribuíram para o desfecho trágico. 

A narrativa é construída de forma a expor não apenas o crime, mas também o contexto sociopolítico que o envolve, incluindo debates sobre racismo estrutural, porte de armas e desigualdade jurídica nos EUA. 

O filme é feito quase inteiramente a partir de imagens reais captadas por câmeras corporais de policiais, além de gravações de interrogatórios e ligações para o 911. A diretora Geeta Gandbhir evita entrevistas tradicionais e narrações externas, permitindo que os acontecimentos se desenrolem diante do espectador com a crueza do registro imediato. 

No #oscar2025 foi indicado o Incidente que mostra a história de um babeiro negro morto em 2018 por um policial em Chicago.

Nota 7.

Disponível netflix: Confira A Vizinha Perfeita | Site oficial da Netflix

Quartos vazios / All the empty rooms (2025)

 


Incluído no shortlist de documentários de curta metragem para o #Oscar2026.

Acompanha o jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp em uma jornada de sete anos visitando quartos de crianças mortas em ataques armados nos EUA.

A proposta, embora simples em aparência, revela-se profundamente complexa: registrar espaços congelados no tempo, onde cada objeto, cada cor e cada detalhe carrega a presença ausente de uma vida interrompida. 

O roteiro constrói-se a partir das visitas aos quartos e das conversas com familiares, criando um mosaico de memórias. A câmera percorre sapatos, brinquedos, cadernos e roupas com cuidado quase reverencial, para não perturbar o silêncio que ali habita. Os detalhes são valorizados: a textura de uma colcha, a disposição de livros em uma estante, o brilho de um troféu escolar. Essa atenção minuciosa transforma os quartos em personagens, cada um com sua própria história e atmosfera. 

Aparentemente o jornalista é muito conhecido (nos EUA) por suas reportagens na CBS.

Vale destacar a relevância política e social do documentário em um momento em que o debate sobre violência armada nos Estados Unidos se perde no abismo escuro do fascismo capitalista. 

Particularmente prefiro o estilo do Michael Moore vencedor do #Oscar2003 com Tiros em Columbine, ou seja, não de ontem que os estadunidenses convivem com as crianças mortas em escolas e fiquei horrorizado de verificar que aqui no Brasil também ocorre um caso por ano 😧😧😧

Lista de ataques e invasões escolares no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre

Tem um parecido que está há anos na minha fila - Polytechnique

Lembrei do caso do ônibus 174, que rendeu um documentário e um filme:

Sequestro do ônibus 174 – Wikipédia, a enciclopédia livre

Ônibus 174 – Wikipédia, a enciclopédia livre

Última Parada 174 – Wikipédia, a enciclopédia livre

Nota 6.

Disponivel netflix: Confira Quartos Vazios | Site oficial da Netflix

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (2025)



Bom filme, mucho loko... e tenso.  Indicado para Urso de Ouro em #Berlim2025 e vencedor de melhor atriz.

O último da diretora Mary Bronstein, Round Town Girls já tem 15 anos.

Uma abordagem contemporânea, visceral e implacável da maternidade.

Linda, uma mãe e terapeuta sobrecarregada, tenta manter a vida em ordem enquanto enfrenta uma sucessão de crises pessoais e profissionais. Entre a filha doente, o marido ausente, pacientes emocionalmente exigentes e uma casa que literalmente desmorona junto com ela, ela começa a perder a capacidade de distinguir o que é real do que é imaginário, devido à exaustão. À medida que a pressão aumenta, sua rotina se transforma em um labirinto psicológico onde cada detalhe ameaça desencadear um colapso. O filme acompanha essa espiral emocional intensa, explorando maternidade, culpa e saúde mental.

Baseado em experiências reais vividas pela própria cineasta durante a doença grave de sua filha, o filme carrega uma autenticidade dolorosa, misturando drama, comédia ácida e tensão psicológica. 

O filme é bem tenso, com close-ups sufocantes, situações desconfortáveis e uma narrativa que se recusa a oferecer alívio ao espectador, reforçando a sensação de aprisionamento emocional vivida pela personagem. 

Muito do filme depende do design de som e da fotografia, que reforçam os elementos fantasmagóricos e a experiência sensorial de confinamento e deterioração emocional, diante das expectativas sociais e culpa.  A combinação desses elementos técnicos transforma o filme em uma experiência sensorial intensa, desconfortável e profundamente imersiva.

A minha cena favorita é a do final em que ela briga com o mar.

Essa cena me lembrou muito a cena final do documentário Estamira, que os mais chegados sempre me ouvem comentar. Inclusive descobri que ele está na íntegra no youtube, se não viu, não perca no link abaixo, pois também é uma obra bem interessante sobre maternidade e saúde mental:


Os temas remetem ao Tully e a atmosfera lembra um pouco o Nope.

O roteiro vai numa espiral de tensões domésticas, emocionais e psicológicas que se acumulam sem pausa, refletindo o esgotamento extremo da protagonista. Ela mal consegue lidar com a própria vida, enfrenta simultaneamente a doença misteriosa da filha, a ausência do marido, o desabamento literal e metafórico de sua casa e o desaparecimento de uma paciente, tudo isso enquanto tenta manter uma aparência de normalidade no trabalho. 

A escolha de nunca mostrar o rosto da filha é uma decisão estética radical que contribui para a sensação de ausência, fragilidade e despersonalização que permeia a narrativa. O rsto do elenco também não aparece muito e isso é intencional, o mundo é apenas o que ela percebe, isso inclusive é discutido na terapia.

Filme de atriz,  Rose Byrne venceu em #Berlim2025, está indicada no #GlobodeOuro2026 e merece uma indicação para o #Oscar2026. Se ganhar é merecido! No elenco de apoio Christian Slater interpreta o marido e o apresentador Conan O’Brien é o terapeuta da terapeuta. 

Combina bem com Die my love, dessa temporada. 

Nota 8, esse não é um filme para entreter, é para provocar... se está procurando algo para relaxar, aqui não tem... ou seja, é mais para sentir do que para entender. 

Recomendo, exceto para quem estiver com sintomas de depressão pós parto.

https://www.imdb.com/pt/title/tt18382850/ 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Bugonia (2025)



Yorgos Lanthimos já entrou definitivamente para a minha lista top 5 de diretores favoritos. Já foi indicado ao Oscar cinco vezes, mas nunca levou.

Não só pela filmografia - a lista é grande: Tipos de gentileza, Pobres criaturas, Nimic, A favorita, O sacrifício do cervo sagrado e o Lagosta.

Emma Stone levou o #oscar2024 por Pobres Criaturas, e junto com ela o outro ator que está sempre no set do diretor grego é o Jesse Plemons, que eu curto demais. Ele fez a temporada 2 de Fargo, uma ponta que é a melhor cena de Guerra Civil, Ataque dos cães, Judas e o messias negro, e um dos melhores filmes recentes que não foi muito comentado: Estou pensando em acabar com tudo. 

Geralmente não gosto de remake, nesse caso o original é o filme sul-coreano Save the Green Planet! de 2003.  Não vi o original... mas gostei bastante desse. Indicado a Leão de Ouro em #Veneza2025 e ganhou o prêmio Drop.

No Globo de Ouro, está indicado nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Atriz e Melhor Ator. 

O roteiro segue dois malucos  teóricos de conspiração, que sequestram uma CEO acreditando que ela é uma alienígena, num contexto dominado por fake news, bolhas digitais e radicalização ideológica, mesmo naipe do pessoal que reza Pai Nosso para pneu.

A narrativa acompanha Teddy (Jesse Plemons), um homem consumido por teorias conspiratórias, que se convence de que Michelle (Emma Stone), uma poderosa empresária, é uma ameaça extraterrestre prestes a destruir a Terra. O texto equilibra sátira e tragédia, explorando como a desinformação pode corroer a percepção da realidade. O roteiro consegue levar o mistério ate a cena final, que é sensacional.

A narrativa explora como a fé individual, o temor do que não compreendemos e a distorção da realidade no ambiente digital moldam nosso comportamento. Oferece um alerta incômodo sobre a capacidade da ficção de revelar nossas tendências mais sombrias.

A vibe do filme lembra um pouco o Ruído branco

A trilha sonora carregada e opressiva, atua quase como uma presença adicional na narrativa. Em certos trechos, o exagero é intencional: Lanthimos busca fazer com que o público experimente a mesma tensão psicológica que domina os personagens.

Eu dou 9, mas a crítica ficou dividida, tem gente que acha o melhor do ano e quem aponta que o filme pode ser excessivamente estranho, caótico e desconfortável - uai mas é por isso que é bom!...

Bugonia (2025) - IMDb

















Frankenstein (2025)

 


Com raras exceções não curto refilmagens mesmo de clássicos...  #prontofalei.

Talvez esse seja uma exceção, talvez não...

O diretor afirmou algumas vezes que tem obsessão com essa história. Vem na esteira de Pinóquio, também financiado pelos comerciais na Netflix. O anterior me entusiasmou mais.

Com o #Oscar2023 na mão, o estúdio deu sinal verde para a nova empreitada,  uma das mais ambiciosas da plataforma, está com cinco indicações (filme, diretor, ator, ator coadjuvante e trilha sonora original) e deve levar alguns #Oscar2026. 

Possivelmente será indicado em direção, ator, ator coadjuvante, fotografia, direção de arte e figurino.

Algumas pessoas que gostaram muito comentaram comigo da profundidade temática do filme, que dialoga com questões de criação, responsabilidade moral e humanidade, temas comuns nos filmes do diretor. 

São mutos filmes do diretor que eu gosto: A espinha do diabo, Beco do Pesadelo, A colina escarlate e claro, o ótimo Labirinto do Fauno.

Favorito para a categoria de direção de arte no próximo Oscar. O diretor investiu :) em cenários reais e no uso mínimo de computação gráfica.

O roteiro escrito pelo próprio Del Toro adapta o romance de Mary Shelley com uma abordagem que privilegia a interioridade dos personagens e a dimensão ética da criação científica. Enfatiza a empatia e o sofrimento tanto do criador quanto da criatura, explorando o isolamento, a rejeição e a busca por identidade, elementos que estão no livro, mas foram diluídos nas adaptações anteriores pro cinema.

Diante do atual contexto da IA, encaixa bem para pensar os perigos da ciência, os dilemas criador / criatura e da arrogância humana diante do desconhecido, temas que são comuns na ficção e no terror (vide A garota artificial, A resistência,   Robot Dreams, a série Love, Death and Robots).

E pra quem gosta de dramas sombrios, fantasia adulta e narrativas filosóficas, se alinha a filmes como Drácula de Bram Stoker O Homem Elefante, que combinam horror, tragédia e humanidade.

Bom elenco, Oscar Isaac assume o papel de Victor Frankenstein, retratado como um cientista brilhante, porém egocêntrico e emocionalmente devastado por suas escolhas. Jacob Elordi interpreta a Criatura, Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Kammerer e Charles Dance completam a trupe.

A fotografia é um ponto alto, criando um universo gótico que combina grandiosidade e intimismo, com iluminação cuidadosamente trabalhada e cenários construídos com minúcia artesanal. O diretor buscou reduzir ao máximo o uso de CGI, privilegiando ambientes reais e efeitos práticos para reforçar a fisicalidade da narrativa. A fotografia reforça o tom trágico da história, com composições que evocam solidão, melancolia e grandiosidade sombria. 

O design de produção também impressiona pela riqueza de detalhes.

Nota 7, por ser remake, no imdb está um pouco mais alta: 7,5.

Vale a pipoca!

https://www.imdb.com/pt/title/tt1312221/