Filmaço, mais um para a lista de sucessos da A24.
Com o subtítulo pleonástico "Um Não‑Lugar" estreou no Brasil embalado por uma espécie de lenda urbana criada no youtube. Dirigido por Kane Parsons, jovem cineasta youtuber estreante no cinema que viralizou com curtas no estilo found footage a respeito de salas e corredores infinitos num universo paralelo ao mundo real.
Já vimos dezenas de filmes que tentam simular um pesadelo na mente das pessoas, mas esse definitivamente consegue!
Não parece novidade né? E de fato não é, vide o clássico A Origem, as séries Ruptura e Strange Things, mas mesmo assim o filme consegue entregar um bom roteiro com muita angústia, claustrofobia, desorientação, paranoia e trauma.
Vou chorar até o fim da vida o cancelamento da adaptação de Sandman... que tinha potencial infinito nesse argumento.
Só dá uma derrapada no final ao tentar explicar uma coisa que era para ser mais sensorial que racional.
O roteiro funciona um pouco como uma metáfora psicológica sobre isolamento, solidão, depressão e perda de identidade que todos passamos nessa era tecnológica tão vazia. Nesse aspecto lembra o recente Se eu tivesse pernas te chutaria.
Os personagens são um arquiteto frustrado (catarse?) e uma psiquiatra cheia de traumas.
No elenco a excelente Renate Reinsve de Valor sentimental, Armand, A pior pessoa do mundo e o principal é o Chiwetel Ejiofor, veterano talvez mais conhecido por 12 anos de escravidão.
A química entre os protagonistas segura o filme especialmente nos momentos em que a narrativa sai do terror para o drama.
Destaque para a ponta de Mark Duplass de Sem segurança nenhuma, um dos meus favoritos de ficção científica que também de certa forma combina com esse.
A fotografia e design de produção são tudo nesse filme, tornando o labirinto interminável de salas sufocante e perturbador.
É um filme arquitetônico, com a arquitetura impossível que já tínhamos visto em A Origem, mas que aqui vira, ao mesmo tempo sutil e explicitamente, o personagem principal.
A câmera frequentemente se posiciona em ângulos que sugerem vigilância, como se o ambiente fosse uma entidade viva observando os personagens. A estética minimalista, com corredores idênticos e salas vazias, cria uma monotonia visual que, paradoxalmente, intensifica o terror: cada espaço parece igual ao anterior, mas sempre há a sensação de que algo está diferente ou errado. Essa ambiguidade visual é essencial para a experiência do filme, e aí que o youtuber surpreende ao transformar simplicidade arquitetônica em pesadelo psicológico.
A iluminação artificial que não funciona, a paleta amarelada quase onipresente e os enquadramentos que reforçam a sensação de repetição infinita e aprisionamento são o que tornam o filme tão sensorial.
A trilogia Cubo, Coerência e o recente Exit 8 também bebem nessa mesma fonte, mas nesse, a A24 não economizou nos cenários. Remete também a Demônio, do Shimalan, Exam e O poço (esse último eu não gostei...).
Found footage é por si só um subgênero do terror, então não vou nem citar os filmes...



























