quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Valor sentimental (2025)

 


É gente... estou torcendo demais pelo Agente Secreto, o filme brasileiro é muito bom mas esse... é melhor.

Grand Prix em #Cannes2025, o segundo maior prêmio do evento - a Palma de Ouro foi para o Foi Apenas um Acidente.

O Agente Secreto levou diretor e ator no mesmo festival, e arrisca ganhar alguns #Oscar2026, mas esse é um forte concorrente com bastante mérito.

Além disso, recebeu oito indicações ao #GlobodeOuro2026, incluindo Melhor Filme de Drama, Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro.

Vai representar a Noruega no Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional.

O diretor Joachim Trier volta ao território emocional que o consagrou como um dos cineastas mais sensíveis da atualidade. Trier revisita temas como memória, culpa, reconciliação e o impacto do tempo sobre os vínculos familiares. Drama íntimo, profundamente humano, fugindo do melodrama e apostando em camadas narrativas que se revelam aos poucos.

O forte do filme é a construção dos personagens e os diálogos, que já marcaram  A Pior Pessoa do Mundo  indicado a melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original no #Oscar2022 e também a Palma de Ouro e levou Melhor Atriz em #Cannes2021. Eu também gostei de Armand.

O filme acompanha o reencontro de duas irmãs Nora e Agnes,  que, após a morte da mãe, precisam lidar com a volta repentina do pai ausente. Gustav é um cineasta renomado que resolve reaparecer, depois de anos afastado. Aí já rola o metacinema, o filme dentro do filme, pondo o dedo nas feridas familiares. 

Nora é uma atriz consagrada de teatro, marcada por inseguranças, crises de pânico e um relacionamento conturbado com o pai, do qual busca em vão o reconhecimento. Ele a convida para estrear o seu filme, após 15 anos sem filmar, mas ela recusa, desencadeando uma série de conflitos que expõem traumas antigos, ressentimentos e tentativas frustradas de reconciliação. 

O roteiro não explica muito e deixa que o espectador preencha as lacunas emocionais deixadas pelos personagens. Outra coisa bacana é que vai alternando os pontos de vista, ampliando a compreensão das motivações de cada membro da família e transformando experiências particulares em reflexões universais sobre abandono, manipulação, afeto e identidade.

O que mais me encantou no roteiro é que é possível entender que a narradora da história é a Casa da Família, isso mesmo, a Casa conta as histórias de quem mora e morou nela, sendo definitivamente um dos personagens mais importantes do roteiro.

Renate Reinsve, que está nos dois anteriores mencionados acima, entrega mais uma vez  uma performance intensa. Já o Stellan Skarsgård, também está muito bem, mas achei que faltou um tantinho de latinidade, entre a vaidade e vulnerabilidade pesou mais a primeira. Dava para complicar  um pouco mais o arco dele com a jovem atriz americana contratada para o papel, explorando o conflito entre daddy e sugar daddy.

Fora as influências claras de Ingmar Bergman, o filme conversa com muitos outros que abordam o abismo intransponível entre pais e filhos, além dos filmes do J. Trier, listo alguns comentados aqui no blog: A filha perdida, Meu pai, SterbenO vazio do domingo, As faces de Toni Eerdman, Nebraska, Laço materno, Falling, Sobre pais e filhos.

Nota 9.5, tomara que não ganhe, mas que merece, merece. Nos cinemas.

Valor Sentimental (2025) - IMDb

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O agente secreto (2025)


VENCEDOR MELHOR FILME #GLOBODEOURO2026

Vá ao cinema!!! Filme do ano, neste bom momento que vive o cinema brasileiro.

Estou torcendo muito para que ganhe os três #GlobodeOuro2026 a que foi indicado (melhor ator, melhor filme e melhor filme em lingua não-inglesa) e arrebente no #Oscar2026.

Lembrando que ganhou melhor ator e diretor em #Cannes2026.

O problema é que aí fui para o cinema com a expectativa alta demais.

Um amigo especialista me falou que é a obra prima do Kleber Mendonça, que sou fã desde sempre, mas sinceramente gostei mais de Retratos Fantasmas.

Vide as outras resenhas aqui no blog: O som ao redorAquarius

E também o canal do diretor no Vimeo: https://vimeo.com/klebermendoncafilho 

Kleber Mendonça Filho, consolida o cineasta como um dos nomes mais influentes do cinema brasileiro contemporâneo. 

Reafirma a capacidade de Kleber de captar a alma do Brasil e construir narrativas politicamente densas, esteticamente sofisticadas e profundamente conectadas à memória histórica do país. 

Aqui ele volta ao terreno da tensão urbana e da paranoia política, mas com uma abordagem ainda mais  atmosférica. A trama acompanha Marcelo, um professor universitário que retorna a Recife em 1977, fugindo da perseguição da ditadura. 

A maior virtude do filme é que ele não se explica muito, nem conclui explicitamente os arcos, saímos do do cinema debatendo várias hipóteses para diversos arcos do roteiro que ficam em aberto. O próprio título se encaixa aí e é uma metáfora com muitos significados possíveis. A história de Marcelo (que é Armando) não é entregue  de forma direta; ao contrário, o filme se recusa a explicar muito quem ele é ou o que fez, reforçando a sensação de  incerteza. 

Essa escolha narrativa é que justifica os prêmios que já ganhou e vai ganhar... a coragem do filme em não subestimar o público. Longe de seguir a estrutura clássica dos thrillers de espionagem, o filme opta por uma narrativa que se constrói a partir de detalhes. 

Assim como nos anteriores, o diretor constrói a atmosfera do filme infiltrada nos silêncios, nos olhares e na arquitetura da cidade, criando uma experiência que exige atenção do espectador, mesmo nas cenas mais lentas, que se equilibram com as mais tensas - as minhas favoritas foram a do carnaval de rua e a cena do climax final ao som da banda de pífanos.

A trilha sonora foi premiada no Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, em Havana, onde o filme venceu cinco categorias, incluindo Música Original.

Ao mesmo tempo, o roteiro equilibra momentos de humor , especialmente nas cenas com Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, cuja presença carismática é um dos destaques do elenco. 

Wagner Moura lidera o ótimo elenco, todos estão muito bem misturando atores famosos e pouco conhecidos, só o casting já mereceria prêmios. Destaque para Alice Carvalho que eu adorei na série Cangaço Novo e Thomás Aquino.

Muitos diretores tem atores preferidos, e Kleber Mendonça não é diferente, mas a sua figurinha mais carimbada é o apartamento da família em Recife, que aparece em quase todos os filmes e o mais incrível é que em cada um deles o mesmo lugar é um lugar diferente.

Minha nota é 9, mas no imdb votei 10!! Vote também no link abaixo!!

https://www.imdb.com/pt/title/tt27847051/


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Eddington (2025)

 


Ótimo filme! A24 + Ari Aster só podia dar bom... Indicado a Palma de Ouro em #Cannes2025.

Ainda não vi Beau tem medo, mas os dois anteriores desse diretor, Midsommar e Hereditário são ótimos para quem gosta de um bom roteiro.

Aqui ele sai um pouco do terror tradicional, mas sem abrir mão do humor ácido, incômodo e claustrofobia que estão nos outros filmes

Faroeste contemporâneo ambientado em maio de 2020, no auge da pandemia de Covid-19, em uma pequena cidade do Novo México. Aster utiliza esse cenário para explorar sátira política, paranoia coletiva,  desinformação e deterioração das relações sociais, transformando a cidadezinha fictícia de Eddington em um microcosmo da crise ideológica dos Estados Unidos (e outros países também...)

O filme tem a mesma vibe de Bacurau e lembra também Não olhe para cima.

Outras refereências são os do Tarantino e A última parada no condado de Yuma.

A narrativa que parte de um conflito aparentemente simples, a rivalidade entre o xerife Joe Cross republicano radical (Joaquin Phoenix) e o prefeito democrata Ted Garcia (Pedro Pascal) e o transforma em um barril de pólvora que envolve toda a cidade. A trama é alimentada por fake news, vídeos virais, discursos inflamados e tensões raciais - te lembra algum lugar?...

Além dos dois principais, Emma Stone e Austin Butler reforçam o ótimo elenco. P

Lembrando muito Breaking Bad e Better Call Saul e os filmes dos irmãos Coen (busque #maratonacoen aqui no blog) a fotografia  reforça a atmosfera de paranoia e tensão na paisagem árida do Novo México cvocando o faroeste clássico. A montagem incorpora elementos de lives, transmissões e vídeos amadores, reforçando a crítica à cultura digital e à banalização de conflitos na internet. O resultado é uma estética híbrida que combina o velho oeste com a linguagem fragmentada das redes sociais.

A nota no imdb 6,6 mostra que muita gente não gostou, mas não é o meu caso, minha nota é 9.

Disponível em vários streamings.

https://www.imdb.com/pt/title/tt31176520/


Pecadores (2025)

 



Não curto muito franquias de super heróis, então não dei muita bola para os anteriores desse diretor Ryan Coogler  Pantera Negra e Wakanda for ever. 

Também não me impressionei muito com esse... aqui no blog tem alguns de vampiro mencionados / resenhados:

Os meus favoritos são o Daybreakers, pelo argumento. e  Fome de viver, pelo elenco!

 O Conde ganhou melhor fotografia no #Oscar2024.

E não me canso de dar nota 10 para o longa e a série O que fazemos nas sombras. 

O filme até que tenta fazer uma crítica social com drama histórico, mas não acho que ;e bem sucedido... 

Pra falar a verdade acho que não tenho repertório suficiente nem vivência para pensar o cinema estadunidense dentro do racismo estrutural estadunidense, sempre achei meio estranho esse tipo de cinema, mas tem dezenas de filmes  comentados aqui no blog...

O roteiro não é exatamente inovador ao tentar misturar denúncia com terror, hajam visto os filmes do Jordan Peele (Não olheNósCorra!)

A trama segue os irmãos gêmeos Smoke e Stack, veteranos da Primeira Guerra Mundial que retornam ao Mississippi após anos trabalhando para a máfia de Chicago. Com dinheiro roubado, eles compram uma serraria e abrem um bar com música ao vivo voltado para a comunidade negra local. A narrativa se aprofunda em tensões raciais, conflitos familiares, lendas sobrenaturais e a presença de uma força maligna que ameaça a cidade. 

Michael B. Jordan preferido do diretor, em  faz o papel duplo melhorado pelo estado da arte tecnológico. Destaque para o Delroy Lindo no elenco coadjuvante. 

A tecnologia ajuda bem na fotografia também.

A trilha sonora sem dúvida salva o filme, pois é Blues na veia - confira a trilha de canções selecionadas (soundtrack)  nesse LINK

E a trilha sonora original voce pode conferir AQUI

Nota 7,5.

Disponível em vários streamings.



domingo, 28 de dezembro de 2025

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025)


Essa franquia é como a música brega, quanto mais exagerada, melhor.

Dos trës, esse é melhorzinho em termos de roteiro. Confira as mini resenhas do primeiro, Entre Facas e Segredos  e Glass Onion.

Bom entretenimento, segue a cartilha e estrutura tradicional do gênero quem matou com pistas falsas, múltiplos suspeitos e plot twists. mas este terceiro capítulo mergulha em temas mais densos, como fé, manipulação e crise existencial. 

Suspense mais introspectivo pelo menos tenta ir além do quebra-cabeça do mistério e traz até o tema da  instrumentalização da fé e a fragilidade humana diante de líderes carismáticos e manipuladores - mas acho que os crentes (de todas as crenças) não vão  perceber isso...

 A trama gira em torno do padre novato Jud, que é desgnado para trabalhar na igreja do Monsenhor Jefferson Wicks, que só oprime seus fiéis, onde ocorre um crime aparentemente impossível, por causa de uma herança. 

A investigação conduzida pelo detetive Benoit Blanc se entrelaça com a crise espiritual de Jud, criando um contraste entre lógica e fé, razão e dúvida. 

Bom elenco (é o padrão Netflix), com destaque para Glenn Close, o detetive é interpretado pelo Daniel Craig e reunindo nomes como Josh Brolin, Josh O’Connor,  Jeremy Renner e até uma ponta do Jefffrey Wright. 

A fotografia é bacana, dá o clima gótico e opressivo que permeia toda a narrativa. 

Obvio que o Benoit Blanc surfa na onda do Hercule Poirot da Agatha Christie (Assassinato no Expresso Oriente,  Morte no Nilo e A noite das bruxas).

Nota 7, vale a pipoca.

Confira Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out | Site oficial da Netflix


No other choice / A única saída (2025)

 


Indicado a Leão de Ouro em #Veneza2025 e 3 #GlobodeOuro2026 - melhor filme, melhor filme estrangeiro e ator, mas não achei isso tudo...

Talvez meu problema é com o diretor pois o anterior Decisão de partir eu já não tinha curtido... Achei longo e lento.

Vai na crítica da automação e da ansiedade trabalhista, explorando o medo crescente da substituição humana pela inteligência artificial, com ironia e humor ácido.

Mas não é bom como Parasita

A trama acompanha Man-su, um gerente de fábrica de papel que, depois de 25 anos de dedicação, é demitido sem cerimônia. Desesperado diante de um mercado de trabalho devastado pela automação, ele decide matar seus concorrentes para garantir o único cargo humano restante no setor. 

 O filme articula temas como masculinidade fraturada, precarização do trabalho, paranoia conjugal e o colapso emocional e doméstico causado pela insegurança econômica. 

Pra ser bem sincero os do Ken Loach com esses temas são melhores... por exemplo Você Não Estava Aqui. 

Mas vá lá...  o roteiro equilibra sátira e tragédia com inteligência, oferecendo uma reflexão contundente sobre o desespero humano em tempos de crise.

O ator principal  Lee Byung-hun (Squid Game) dá uma segurada no filme, indicação merecida para o Globo de Ouro. 

A trilha sonora demonstra que a música brega é universal... 


Nota 7 - recomendo se vc como eu gosta de se antecipar ao Oscar.

https://www.imdb.com/pt/title/tt1527793/

Highest 2 lowest / Luta de Classes (2025)

 


Bom filme, Spike Lee volta com um  thriller criminal reinterpretando High and Low de Akira Kurosawa na Big Apple, com os temas típicos de desigualdade, responsabilidade e poder.

Produção A24 e Apple.

A trama acompanha David King, um magnata da música que se vê diante de um dilema moral quando o filho de seu motorista é sequestrado por engano e o criminoso exige um resgate milionário. O texto explora com profundidade a tensão entre responsabilidade pessoal e interesses corporativos, confrontando o protagonista com egoísmo, culpa e privilégio. 

Denzel Washington está muito bem no papel principal dividindo a cena com Jeffrey Wright. E Nova Iorque é sempre mais um personagem.

Sendo a história sobre dono de gravadora, a trilha ganha peso, combinando elementos de jazz contemporâneo, batidas urbanas, eletrônicas e hip hop. 

No gênero, não chega aos pés de Cidade de Deus ou até mesmo Tropa de Elite.

Lembra um pouco o Uncut Gems

Não é o melhor do diretor mas vale conferir. Nota 5,5 no imdb, dou 7. Releitura é sempre difícil...

Luta de Classes (2025) - IMDb

sábado, 27 de dezembro de 2025

Uma batalha após a outra (2025)


Bom filme, Leonardo di Caprio muito bem, merecido se ganhar o #Oscar2026 e o de coadjuvante fica até difícil pois o Benicio del Toro, rouba a cena, está melhor ainda que o principal.

E no caso do Sean Penn como machão escravo sexual é simplesmente o melhor papel da carreira -se ganhar, merece demais.

Paul Thomas Anderson está meu time de favoritos, principalmente por Magnólia e Boogie Nights, mas Licoricce Pizza e A trama fantasma não curti muito.

Aqui ele retorna com um roteiro adaptado e aquela típica energia criativa que mistura caos, sátira política, ação frenética e um humor ácido que surpreende até os admiradores.

O roteiro segue o antiherói Bob (DiCaprio), um ex-revolucionário desastrado. A trama mistura ação política, sátira social e humor desconfortável, criando um universo onde revolução, autoritarismo e violência se entrelaçam com relações familiares e traumas pessoais. Por outro lado fica naquele limite que corre o risco de reforçar o que pretendia denunciar...

Não é nenhuma Brastemp, mas quem faz o trabalho bem feito também ganha Oscar.

Nota 7.5, disponível em vários streamings.

https://www.imdb.com/pt/title/tt30144839/ 

Foi apenas um acidente (2025)


 Palma de ouro em #Cannes2025, junto com Valor Sentimental talvez seja o maior concorrente do Agente Secreto para o #Oscar2026.

Ainda não vi Sem Ursos, mas gostei mais de 3 Faces do que desse.

Dirigido pelo consagrado cineasta iraniano Jafar Panahi, frequentemente perseguido e censurado pelo regime iraniano, condição comum de outros diretores, p. ex. o premiado Asghar Farhadi ( A semente do fruto sagrado indicado ao #Oscar 2025, A Separação - #Oscar 2012, Um herói e O passado)

Como outros anteriores traz experiências pessoais do diretor, que passou meses encarcerado e chegou a realizar greve de fome para denunciar abusos. 

A força autoral de Panahi se manifesta tanto na coragem de abordar temas sensíveis quanto na habilidade de transformar dor em cinema político de altíssima potência. Ele é um cineasta que filma não apenas por vocação, mas por necessidade.  — e isso reverbera em cada minuto do longa.

O roteiro, escrito pelo próprio Panahi, acompanha um grupo de ex-prisioneiros políticos que reencontra um homem que acreditam ser seu antigo torturador. A partir daí, o filme se transforma em um estudo profundo sobre trauma, memória e responsabilidade individual dentro de sistemas autoritários. 

Diálogos densos, carregados de tensão e ambiguidade, nos quais cada personagem revela sua dor e contradições .

O roteiro também levanta questões éticas complexas - até que ponto um indivíduo deve ser responsabilizado por crimes cometidos sob ordens superiores? A vingança é capaz de reparar um trauma coletivo? E o que significa perdoar quando as feridas ainda estão abertas?

Apesar da distância cultural, o espectador brasileiro se sente familiarizado com essas temáticas, que também aparecem em muitos filmes por aqui, tanto os nacionais quanto latino americanos, p. ex. O que é isso companheiro? Batismo de sangue, Ainda estou aqui,  Argentina 1985, O olvido que seremos, entre outros (vide a lista da Carta Capital).

Com atores e não-atores, as performances são marcadas pela autenticidade, resultado tanto da direção de Panahi quanto da proximidade dos intérpretes com a realidade retratada. Bons diálogos e monólogos dão ao filme um tom de documentário.

Fotografia bacana, com destaque para um plano-sequência todo vermelho no final, que é um dos mais potentes dos últimos tempos, pensando neste tipo de filme.

Nota 7, acho que não bate o Kleber Mendonça, #natorcida.

Nos cinemas.

Foi Apenas um Acidente (2025) - IMDb

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Plur1bus (2025)


Aêêê... as melhores séries são as da Apple, e ponto final.

Criada por Vince Gilligan, diretor e roteirista consagrado por Breaking Bad e Better Call Saul, melhor série já feita e melhor série já feita de novo, simples assim.

Depois de 15 anos de drama criminal, aqui o diretor vem com ficção científica, humor ácido, drama psicológico e reflexões filosóficas sobre individualidade e coletividade.

A verdade simples é que para contar uma boa história é necessário somente a boa história.

Estreou em novembro, o sucesso de crítica e público (já bateu o recorde de Ruptura) mostram que o risco valeu a pena!

O genial aqui é que parte do argumento mais batido de todos na ficção - invasão alienígena - e consegue ser original, o que é muuuito raro hoje em dia.

A narrativa gira em torno de Carol Sturka,  uma autora de romances que se vê como uma das poucas pessoas imunes a um evento global em que a maior parte da humanidade é assimilada por uma mente coletiva antropomórfica. 

Parte da genialidade do roteiro está na ironia de que a invasão torna os humanos mais felizes, mais democráticos, sem preconceitos, sem crimes, sem guerras e a protagonista a quem resta a tarefa de salvar o mundo é a mais controversa, ansiosa e mal humorada humana da Terra.

No fundo também tem uma crítica ao atual estado de coisas com a IA, pois a humanidade invadida compartilha uma espécie de conexão pisíquica em colmeia, em que todos acessam o conhecimento, pensamento e sentimentos dos outros, então todo mundo sabe "tudo". Nesse sentido remete um pouco a Black Mirror

A atriz Rhea Seehorn consagrada em Better Call Saul retorna com uma performance complexa, vulnerável e profundamente humana, sendo indicada ao Critics Choice e ao Globo de Ouro por esse papel.

Mas se vc não gostar de série inteligente, lenta e estranha, sobre ética, moralidade e sentido da vida, como Twilight Zone,  deixe para lá...

A trilha sonora, assim como nas séries anteriores do Gilligan, pega o melhor do jazz (inclusive com bossa nova) e da música americana que não aparece muito no mainstream.

Confira a trilha selecionada nesse link.


Já trilha original orquestrada você pode conferir nesse link

As críticas positivas à série concentram-se sobretudo em sua originalidade e ambição temática. Vários críticos celebram a escrita de Gilligan por sua capacidade de articular um universo que desafia convenções narrativas tradicionais e favorece uma experiência de observação ativa, em que o espectador é convidado a refletir sobre os dilemas levantados em vez de receber respostas prontas. 

Nota 8, recomendo!

No imdb está com nota 8,3 quem acompanha as notas por lá sabe que essa é bem alta...

Pluribus (Série de TV 2025– ) - IMDb

A Avaliacao (2025)


Boa ficcão científica, drama psicológico estreia da cineasta Fleur Fortuné em longa-metragem, apresenta uma sociedade pos apocaliptica distópica, na qual o Estado controla completamente a reprodução humana. 

Remete  ao Big Brother e Admirável Mundo Novo, que rendeu uma série que comentei aqui recentemente, mas sem a monumentalidade dessas referências. 

A narrativa se passa em um mundo devastado pelas mudanças climáticas, onde os recursos são escassos e cada decisão sobre a formação de uma família depende de um processo governamental altamente criterioso.

O casal protagonista, Mia e Aaryan, atravessa um teste de caráter íntimo e político, que ultrapassa os limites de várias formas.

De certa forma é uma metáfora sobre o que estamos dispostos a abrir mão na nossa condição humana para sermos aceitos pelos outros e viver em sociedade.

Uma coisa boa do roteiro é que não fica explicando muto, consegue o equilíbrio entre o que é mostrado e o que permanece subentendido, nesse aspecto até derrapa um pouco ao expor demais os bastidores do sistema no final, dava para ter terminado o filme quando a avaliação termina...

Thriller mais intimista, centrado nas tensões emocionais e dinâmicas de poder entre os personagens e nos limites éticos da sociedade autoritária,  perpassando conflitos internos, dilemas de maternidade, e questionamentos sobre identidade e liberdade individual.

Destaque para a performance das atrizes Alicia Vikander e Elizabeth Olsen (a das irmãs) que junto com e Himesh Patel formam um triangulo intenso que segura o filme. Vikander interpreta Virginia, a avaliadora enigmática e implacável, com uma frieza calculada que contrasta com os momentos de vulnerabilidade dos protagonistas. Olsen, por sua vez, dá vida a Mia, uma bióloga que enfrenta não apenas os testes impostos pelo governo, mas também os dilemas internos sobre sua própria capacidade de ser mãe. Patel completa o trio com uma atuação contida e emocionalmente carregada, representando Aaryan, especialista em inteligência artificial. A química entre os atores sustenta a tensão dramática do filme, e suas expressões faciais e reações sutis contribuem para a construção de um ambiente opressivo e emocionalmente denso.

Nota 7,5. Disponível Prime Video.

https://www.imdb.com/pt/title/tt32768323/ 

sábado, 9 de agosto de 2025

Totem (2023)


Bom filme, melhor ainda considerando que não se vê produções mexicanas se destacando todo dia.

Aliás se tem uma coisa necessária e urgente a fazer contra o imperialismo estadunidense é promover o cinema feito fora dos Estados Unidos.

Dirigido pela cineasta Lila Avilés, filme intimista e profundamente sensível sobre a única certeza da vida.

A narrativa é centrada na pequena Sol, uma menina de sete anos que passa o dia na casa do avô ajudando a preparar uma festa surpresa para o seu pai, que é um paciente terminal.

Centrado nos personagens da família, excelentemente construídos e o seu cotidiano de tensões e conflitos,  diante da iminência da morte de um dos membros da família. 

Situação aliás que tenho testemunhado a coragem e perseverança de vários amigos que talvez me leem aqui...

A estrutura latina da atmosfera emocional já pega os brasileiros sem esforço, destacando pela  abordagem envolvente e poética, buscando a essência da condição humana. 

A escolha acertada do roteiro de acompanhar os eventos a partir da perspectiva da criança confere ao filme uma dualidade da inocência da menina e da complexidade emocional dos adultos ao seu redor, oscilando entre o lúdico e o melancólico.

A câmera muitas vezes se posiciona na altura da menina, reforçando a perspectiva infantil.

As atuações aparentemente improvisadas do elenco acho que foram intencionalmente dirigidas para capturar a espontaneidade da vida real. Essa abordagem minimalista reforça a proposta estética do filme, que privilegia o cotidiano e os vínculos familiares como matéria-prima para a narrativa.

Acho que a grande sacada do filme é contar uma história feita de várias histórias, mas só parcialmente, deixando para o espectador imaginar e completar todas elas.

Uma das virtudes do filme é que ele não é muito longo, 1h30, fica no limite e poderia até ter sido um curta metragem.

Coloquei o anterior da diretora, A Camareira, na fila.

Mesmo tema, igualmente bom filme, mas com contexto e perspectiva totalmente diferentes é O quarto ao lado, confira a minha resenha.

Nota 7, recomendo!

Tótem | Netflix

Tótem (2023) - IMDb


domingo, 20 de julho de 2025

Apocalipse nos trópicos (2025)


Novo da Petra Costa, praticamente uma continuação de Democracia em Vertigem, talvez com menos acertos.

Propõe aprofundar as implicações políticas e sociais do avanço do movimento evangélico sobre a esfera pública brasileira, ensaio visual ambicioso sobre como a fé cristã foi mobilizada para alicerçar o poder político do inominável de tornozelo preso. 

Construído a partir de entrevistas inéditas, imagens de arquivo e passagens bíblicas interpretadas por figuras evangélicas influentes. O roteiro vai fazendo conexões entre o crescimento das igrejas neopentecostais e a ascensão da extrema-direita no Brasil. 

Acho que faltou ampliar um pouco a crítica colocando o catolicismo no balaio, e um panorama mais amplo da religiosidade polarizada no Brasil, a exemplo do que conseguiu o Eduardo Coutinho em Santo Forte

Não creio que vai estar no #Oscar2026 mas que vai sincronizar com a prisão dos golpistas vai.

Mesmo com certa superficialidade, é um manifesto essencial para condenar o pecado capital de misturar Estado e religião e demonstrar porque o Estado Laico é um dos pilares fundamentais da Democracia.

Acho que ganha força se for somado com o Podcast No Alvo, do ICL, que aborda a trajetória e a retórica do pastor Silas Malafaia. 


O filme expõe como líderes evangélicos, incluindo figuras como Malafaia, ajudaram a construir um discurso político que legitima práticas autoritárias sob o verniz da fé. O podcast revela como Malafaia domina os meios de comunicação, constrói sua autoridade com base na teologia da prosperidade e atua como elo entre os interesses religiosos e o poder institucional. 

Aproveite para rever O Processo, e conferir a série The Family da Netflix.

Nota 8, recomendadíssimo.


O Eternauta (2025~)


É bom ver uma produção latino americana destacando no mercado dominado por Hollywood, ainda mais agora que o cara pálida quer nos coitar mais do que já o fazem usualmente.

Adaptada de uma HQ famosa (que não tenho na coleção...) ficou acima da média das séries apocalípticas, sem depender (muito) de computação gráfica e com um protagonista anti-herói.

O ETERNAUTA VFX Breakdown by Miagui

Produção argentina, diversificação de investimento da Netflix que deu certo. Os seis episódios da primeira temporada foram gravados em Buenos Aires, aproveitando cenários urbanos reais.

Tudo começa com uma nevasca tóxica que cobre a capital portenha matando milhões em questão de horas. Aos poucos a trama vai revelando que se trata de uma invasão alienígena. Em meio ao caos, o protagonista Juan Salvo (Ricardo Darín) lidera um grupo de sobreviventes que tenta entender o que está acontecendo. 

[Depois dê uma conferida no meu post sobre a série Invasão, verdadeiro vacilo da Apple.]

Assim como em outras boas produções do gênero, o que está em questão aqui é a fragilidade da condição humana na hora do aperto. 

A obra original, criada por Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano Lopez na década de 1950, foi escrita em plena ditadura militar argentina como metáfora sobre autoritarismo e resistência. Oesterheld posteriormente revisou o quadrinho com críticas mais diretas à ditadura militar e às desigualdades sociais, o que teve consequências trágicas, pois ele foi preso e desaparecido pelo regime.

Essa adaptação abraça essa proposta e a potencializa: há crítica social explícita, reflexões sobre controle ideológico, militarização e o papel do indivíduo diante do poder. 

Enfim a invasão aqui é pretexto para temas  humanos, políticos e emocionais. 

A história envolve loop temporal,  mas a primeira temporada somente dá pistas disso por meio dos deja vus e lapsos de memória dos personagens e do Alien comandante, retratado por uma mão com inúmeros dedos, deixando o tema para a próxima temporada

Nesses tempos de tecnologia descontrolada e discursos extremistas, é uma boa reflexão sobre o que nos move, o que nos paralisa, e o que ainda nos mantém vivos.

Comic: El Eternauta, el cómic por el que perdió la vida su autor | Diario Sur

Nota 8.  Vale lógico conferir junto com Argentina 1985

Outro argentino sensacional sobre loop temporal é o Querida, vou comprar cigarros e já volto. 

O Eternauta (Série de TV 2025– ) - IMDb


Murderbot / Diários de um robô assassino (2025~)


Boa série de Sci-fi, com tom sarcástico muito bem humorado e usando bem os clichês. Mais um laser no alvo da Apple TV.

O título traduzido já provoca risadas. Melhor não.

Estrelada por Alexander Skarsgård, consegue pautar o tema atual da IA e fazer uma abordagem irreverente e profundamente humana das contradições que vêm com a liberdade, a empatia e o desejo de se desconectar do mundo.

Roteiro adaptado, o argumento envolve corporações que dominam a exploração espacial (para encontrar aliens, como sempre) e contratam robôs assassinos para proteger humanos em missões científicas. 

O personagem principal é um desses robôs, que hackeia o próprio sistema, eliminando os seus comandos de controle e fica fingindo que ainda está sob domínio dos clientes, enquanto assiste compulsivamente a novelas de sci-fi parecidas com Star Trek.

Ele  é forçado a interagir mais com os humanos e acaba fazendo conexões emocionais (!!!). Ao longo da temporada, acompanhamos o dilema entre o seu instinto assassino e uma crescente consciência ética, tudo narrado em primeira pessoa com comentários mordazes e um olhar mais que cínico sobre a humanidade.

Ou seja, acerta no essencial para qualquer obra de dramaturgia: o texto, que envolve nomes  vindos de produções como The Expanse e Mr. Robot. A seu modo é parecida com Resident Alien.

Ótima sacada dos mini-episódios das novelas dentro de cada episódio.

O ator principal consegue passar nuances sutis entre apatia, angústia existencial e sarcasmo puro. A performance evita caricaturas e torna o personagem tragicamente bem engraçado.

 O design de produção não é espetacular, é mais econômico em termos de efeitos, sets e cenários, mas não decepciona.

Enfim bom entretenimento, nesses tempos de sobrecarga tecnológica e busca de sentido em que nós, os robotizados, nos esforçamos para ser quase humanos...

Nota 8, recomendo. 

Apple TV.

Diários de um Robô-Assassino (Série de TV 2025– ) - IMDb

Penalty loop (2024)




Depois que vi Primer, continuo gostando de fimes de viagem no tempo e loop temporal, mas é bem difícil algum que supere, talvez o Coerência.

Esse aí é bem estranho eu não entendi, e pelo que eu li os críticos também não... e olha que a cópia que eu assisti estava dublada em russo.

Longa de 2024, dirigido por Shinji Araki, meio que tenta subverter o gênero "loop temporal".

A história acompanha Jun, um homem devastado pela morte brutal de sua namorada, Yui, assassinada por Mizoguchi.Consumido pela dor e pela sede de justiça, Jun elabora um plano meticuloso para matar o agressor. Após executar o crime e se livrar do corpo, ele acorda no dia seguinte apenas para descobrir que tudo voltou ao ponto de partida, o assassino está vivo, e o dia recomeça. Preso no loop, Jun é forçado a repetir o ato de vingança diariamente, mergulhando cada vez mais fundo em um ciclo de violência, obsessão e desespero. 

O problema é que o filme não se preocupa em explicar a origem do fenômeno temporal e foca nas implicações psicológicas e morais da repetição. À medida que Jun revive o mesmo dia, sua relação com Mizoguchi se transforma em um jogo estranho de reconhecimento e cumplicidade, onde os limites entre justiça e sadismo se tornam cada vez mais turvos.

No meio da trama aparece um contrato assinado que parece ser uma metáfora para o destino, em outro momento a namorada entra no carro dele fungindo de algo ou de alguém, mas nada disso é explicado e assim como o próprio personagem, o espectador dificimente conseguirá encontrar o sentido do filme.

Eu gosto bastante do cinema japonês, mesmo quando é mais non sense, mas esse exagerou na dose. Alguns que estão resenhados aqui no blog: Monster, Drive my car, Depois da vida, We are little zombies, A despedida, e o meu preferido A partida

Nota 5. Recomendo só para quem gosta de filme japonês estranho que você só encontra dublado em russo.

Penaruti rupu (2024) - IMDb


quinta-feira, 10 de julho de 2025

Invasion (2021~)


Geralmente as séries de ficção da Apple arrasam, aqui no blog tem várias resenhadas, como por exemplo Ruptura, Matéria Escura, Fundação, SiloConstellation e diferentona Calls

Essa saiu da curva e decepcionou, assisti a 1a temporada por curiosidade, fui até o 1o episódio da 2a temporada e perdi a paciência...

O argumento já não ajuda muito, de tão batido, mas a montagem parece um projetor de slides antigo mostrando uma  colagem arrastada de draminhas pessoais...

Tenta entrelaçar cinco histórias paralelas, mas a montagem falha em criar ritmo ou coesão. A abordagem se prende em convenções já desgastadas: famílias em fuga, soldados em conflito interno, cientistas isolados, mais do mesmo...

A invasão em si parece copiada da franquia Um lugar silencioso, que já tinha me dado uma preguiça interestelar.

Nota 4, não recomendo.

Invasão (Série de TV 2021–2025) - IMDb


sábado, 5 de julho de 2025

Diamante bruto (2024)


Diretora estreante Agathe Riedinger, estreou em #Cannes2024 e se tornou um dos mais comentados do evento. 

Bom argumento, uma reflexão sobre a saúde mental e os efeitos da cultura pop e das redes sociais sobre a identidade e autoestima da Geração Z, com uma crítica aos padrões estéticos excludentes e exposição constante nas redes sociais

A história acompanha  Liane, uma jovem francesa de 19 anos que mora numa casa modesta no sul da da França. Inquieta, ela é movida por desejos de beleza, fama e pertencimento e quer a todo custo se tornar uma celebridade. A busca pela fama leva a participar de testes para um reality show que promete transformação e sucesso instantâneo. 

O roteiro mergulha nos dilemas e contradições que envolvem a construção da autoestima em uma sociedade que exalta aparências.

Eu achei o ritmo excessivamente lento, com uma estética crua, meio documental, mostrando o cotidiano da jovem e  revelando suas vulnerabilidades e frustrações. O ideal inalcançável começa a corroer sua relação com o corpo, com a família e a própria identidade. O sonho de ser descoberta se transforma gradualmente em um pesadelo e a tensão emocional cresce à medida que ela é forçada a confrontar a superficialidade da sua vida.

O filme tem um tom de lamento que vem sendo comum em filmes franceses, sobre o desaparecimento de uma cultura erudita no mundo contemporâneo. 

Enfim, crítica ao mundo midiático, à cultura da celebridade e às estruturas sociais que perpetuam desigualdades de gênero e de classe.

O jeitão do filme me lembrou do vencedor do #oscar2021 Nomadland

Um ponto alto é a forma respeitosa e cuidadosa de mostrar o corpo feminino.

Nota 7. Recomendo.

Disponível no MUBI e PRIME.

Diamante Bruto (2024) - IMDb

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Mountainhead (2025)


Do criador da ótima série Succession, crítica social (leve...) sobre os mesmos relações contemporâneas do poder patriarcal "imbroxável" com a tecnologia.

Até a roupa dos personagens lembra os tais legendários que pagam caro para subir a montanha.

Três bilionários e um pobre multimilionário que ainda não conseguiu seu bilhão, isolados em uma mega mansão nas montanhas estadunidenses durante uma crise global alimentada pela desinformação e pela ascensão da inteligência artificial. 

Oscilando entre o sarcasmo cômico ácido e o grotesco, ao longo do filme o generoso espaço físico da mansão vai se tornando claustrofóbico, em um campo de batalha ideológico e moral, mostrando os delírios de grandeza, a desconexão com a realidade e os perigos de concentrar poder tecnológico em poucas mãos. 

A mansão se transforma numa espécie de centro de controle do apocalipse, pois pelo celular eles controlam mercados, governos e exércitos - e conspiram para matar um deles.

O resultado não é tão bom quanto o da série, o roteiro é um pouco repetitivo, mesmo a presença do experiente Steve Carell no elenco não segura o filme. Ficou parecendo uma mistura de Shark Tank com Big Brother.

Mesmo assim acho que vale a pena conferir para reconhecer que alguma coisa está fora da nova ordem mundial.

Além da série, a vibe do filme é a mesma de Triângulo da Tristeza e Infinite Pool e  remete também ao bom A rede social, o isolamento da elite lembra um pouco O menu, Pelo lado cômico ácido parece um pouco Knives out. Já a atmosfera claustrofóbica dialoga com Ex Machina.

Nota 7. 

Disponivel HBO e Prime.

Aproveite para dar uma conferida no Direto do Fim do Mundo sobre esse tema:





quinta-feira, 26 de junho de 2025

Vitória (2025)


Como em tudo, na arte a experiência conta muito... bom filme demonstrando a capacidade dessa que é talvez a maior atriz brasileira viva e atuante!

Com certeza, um dos mais sensíveis e potentes do cinema nacional em 2025. 

Dirigido por Andrucha Waddington e Breno Silveira, sendo que Silveira faleceu durante as filmagens, e Andrucha assumiu a direção.

A escolha de dois diretores com estilos distintos, mas que destacam a emoção contida nos detalhes cotidianos, revela-se um acerto que molda a identidade do filme:  

Enquanto Waddington empresta seu olhar apurado sobre a estética e o ritmo narrativo, Silveira contribui com a alma do filme: a busca por justiça contra à banalização do mal. 

Baseado em fatos reais, o filme conta a história de Joana Zeferino da Paz, uma aposentada moradora de Copacabana, que em 2005, filmou da janela de seu apartamento a movimentação de traficantes e policiais corruptos. Suas gravações resultaram na prisão de mais de 20 pessoas. 

A atuação de Fernanda é muito sensível, do semblante abatido à fala pausada, cada nuance de sua atuação transmite décadas de experiência e dor acumulada. Mas o papel seria sim uma oportunidade de dar mais visibilidade a outras atrizes negras brasileiras. 

O roteiro, escrito por Aline Portugal e Márcio Alemão, é um retrato comedido e comovente da vida em silêncio de uma mulher à margem da sociedade midiática, mas dotada de uma força moral que transcende sua fragilidade aparente. 

Vale também como um discurso contra o etarismo que virou mato no Brasil.

Ao evitar os clichês do cinema de denúncia, o script aposta na introspecção e nas contradições morais da protagonista, fugindo de um falso heroísmo. O filme tem uma tensão que cresce lentamente. 

O restante do elenco é competente e equilibrado, mas propositalmente contido para não ofuscar a protagonista. A narrativa é contada do ponto de vista de Nina e os demais personagens ficam em órbita. 

Não pude deixar de reparar na direção de arte principalmente nos detalhes do apartamento, que em muitas coisas parece com a minha casa...

Na esteira de Ainda estou aqui, o filme conseguiu merecidamente uma boa bilheteria nos cinemas e tem até sido cotado para representar o Brasil no #Oscar2026. No Festival do Rio, ganhou Melhor Atriz e Melhor Direção. 

Não tem como não compará-lo com Central do Brasil (ai que saudade da Marília Pêra...), aqui novamente Fernanda contracena com o ator mirim Thawan Lucas.

De certa forma dialoga um pouco com os dramas urbanos do Kleber Mendonça, como  O som ao redor e Aquarius, apostando na força silenciosa da mulher madura, marginalizada pela sociedade mas que não perdeu a verdadeira ética.

Minha nota é 8, um pouco pelo ritmo. 

Vitória (2025) - IMDb

Disponivel no Globoplay.

domingo, 8 de junho de 2025

Aniara (2018)


Ficção científica sueca, bom filme, não é muito conhecido, merece uma conferida!

Só de não ser falado em inglês nem focar nos efeitos especiais ou narrativas heroicas mas sim em questões filosóficas e existenciais, já vale a sessão.

E também pela forma extremamente realística com que apresenta o argumento, apesar de alguns furinhos de roteiro.

Baseado em um livro homônimo de Harry Martinson, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. O roteiro se mantem fiel ao espírito do texto original, enfatizando a insignificância humana diante das distâncias invencíveis.

A história acompanha uma nave espacial que transporta colonos para Marte, mas que, após um acidente, perde sua rota e fica à deriva no espaço. Sem possibilidade de retorno, os passageiros precisam lidar com a dura realidade de que jamais sairão da nave.

Com uma abordagem minimalista e profundamente reflexiva, que se distancia dos roteiros convencionais do gênero, moldada pela angústia, onde a esperança e o desespero se tornam forças opostas que moldam o destino dos personagens, seus traumas e limitações psicológicas e suas reações diante da inevitabilidade do destino. 

A trama gira em torno de uma tripulante encarregada de operar um sistema de realidade virtual que permite aos passageiros reviver memórias da Terra, função que se torna cada vez mais essencial para a sanidade dos viajantes ao longo da viagem. 

A fotografia tem uma atmosfera opressiva. Em vez de cenários grandiosos e efeitos visuais espetaculares, o filme aposta em uma estética minimalista, utilizando espaços fechados e iluminação artificial para reforçar a sensação de confinamento. 

O foco não é nos efeitos, mas os que foram utilizados não deixam nada a desejar em relação às produções médias do gênero.

Parece um pouco com 2001 uma odisséia no espaço.

Ou seja se vc curte FC com porte de drama psicológico essa é uma boa pedida.

Nota 8 pelos furos do roteiro que poupariam aos personagens muitas desventuras e algumas cenas de nudez achei que somam pouco para o roteiro, poderiam ser em menor número e concentrar nas essenciais.

Disponível em vários streamings.

Aniara (2018) - IMDb







domingo, 1 de junho de 2025

O esquema fenício (2025)

Quem me lê aqui nesse blog sabe que sou fã incondicional do multipremiado diretor Wes Anderson.

Vencedor do #Oscar2024 pela Incrível História de Henry Sugar, duplamente indicado no #Oscar20219 por Ilha dos Cachorros e nove indicações tendo ganhado quatro #oscar2015 pelo Grande Hotel Budapeste.

Confira tyambém a minha resenha do Asteroid City e A Crônica Francesa.

Aqui uma ótima resenha da filmografia do diretor: https://www.domusweb.it/en/news/2025/05/22/wes-anderson-movies-design-furniture.html

Se precisar, ligue a tradução no navegador.

A Olivia nos deu uma cortesia e fomos assistir esse já na estreia..

Uma das coisas que eu adoro no Wes Anderson é que ele conseguiu desenvolver um estilo que para muitos pode até parecer monótono, mas só para quem não presta atenção nos detalhes.. 

A assinatura inconfundível do diretor são a fotografia e um design gráfico obsessivo que regem todo o filme com uma composição de cenas absurda de tão detalhada, mas ao mesmo tempo com maquetes e efeitos práticos que fazem o filme parecer um trabalho escolar do ensino fundamental. 

E também um ótimo desenvolvimento de personagens e diálogos. Mas se vc não gosta de diálogos longos e divertidas batalhas verbais, pode achar cansativo...

Esse foi coescrito com o Roman Coppola e estreou no Festival de Cannes  - que não dá para parar de gritar É do Brasil!!! pelas vitórias do Kleber Mendonça e Wagner Moura!

O roteiro acompanha Zsa-Zsa Korda, um magnata excêntrico que decide deserdar seus nove filhos e deixar sua fortuna para sua única filha Liesl, uma noviça aspirante a freira.  Após sobreviver a várias tentativas de assassinato ele decide tentar convencê-la a cuidar dos negócios da família e concretizar o maior projeto de vida de Korda, o esquema que dá nome ao filme. O objetivo dela porém é tentar descobrir quem matou a sua mãe, pois o pai tem fama de ter mandado matar as suas várias esposas.

Acompanhados por Bjorn, um tutor norueguês obcecado por insetos, eles embarcam em uma viagem a vários locais do mundo, cheia de negociações, traições e perigos inesperados. No caminho, precisam lidar com empresários, empreiteiros, terroristas estrangeiros e assassinos determinados a impedir que o esquema se concretize. O filme mistura espionagem, comédia sombria e ação, trazendo o estilo visual característico do diretor , com simetria impecável e uma paleta de cores cuidadosamente trabalhada. 

A estrutura do filme é dividida em capítulos, baseados nos personagens que eles buscam para realizar "o esquema".

O elenco é mega estrelado, com muitas figurinhas carimbadas do diretor: Benicio Del Toro, Jeffrey Wright, Scarlett Johansson, Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Bill Murray e vários outros.

A trilha sonora eclética é mais uma virtude do filme. 

Nota 9 e tomara que entre nas listas do #Oscar2026.

Para os fãs do diretor, a produção oferece tudo o que se espera de um filme de Anderson: humor refinado, personagens excêntricos e uma direção meticulosa. 

Já quem entrou no cinema achando que ia ver a Scarlett Johansson de dominatrix dando voadora, levantou no meio do filme...

https://www.imdb.com/pt/title/tt30840798/













domingo, 18 de maio de 2025

Meu bolo favorito (2024)


O melhor drama que vi recentemente! Filme belo e extremamente delicado e sensível sobre envelhecimento, a tristeza da solidão, amor e sexualidade na terceira idade.

Indicado ao Urso de Ouro e vencedor do juri ecumênico em #Berlim2024.

Além de todos os seus méritos esse filme tem que ser assistido porque os diretores Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha enfrentam restrições severas e processos judiciais devido ao conteúdo do filme, que desafia normas rígidas do governo iraniano. 

Desde 2023, quando as autoridades iranianas começaram a investigar a produção do filme, os cineastas passaram por interrogatórios frequentes e tiveram seus passaportes confiscados, impedindo-os de comparecer à estreia mundial do filme no Festival de Berlim 2024.

O governo iraniano acusou os diretores de propaganda contra o regime, produção e distribuição de conteúdo obsceno, ofensa à moral pública e exibição do filme sem licença oficial. 

Para se ter uma noção, na cena em que o casal toma banho junto eles estão vestidos! (1a foto abaixo)

A imoralidade contida no filme é a de denunciar os excessos que o regime iraniano impõe as mulheres.

Nos últimos meses, o Irã tem testemunhado uma nova onda de resistência feminina contra as rígidas leis de vestimenta impostas pelo regime. A campanha Mulheres, Vida, Liberdade, iniciada após a morte de Mahsa Amini em 2022, continua a inspirar protestos, com milhares de mulheres desafiando a obrigatoriedade do hijab e enfrentando prisões e agressões por parte da polícia da moralidade. 

Relatos indicam que a repressão se intensificou, com patrulhas reforçadas e câmeras de vigilância monitorando as ruas para identificar e punir quem descumpre o código de vestimenta. Apesar da violência estatal, muitas iranianas seguem resistindo, recusando-se a cobrir o cabelo e encontrando novas formas de desafiar o regime, como protestos silenciosos e manifestações nas redes sociais. 

No mês passado, um tribunal iraniano condenou Moghadam e Sanaeeha a 14 meses de prisão, pena que foi suspensa por cinco anos, além de uma multa significativa. O tribunal também ordenou o confisco  de todos os equipamentos utilizados na produção do filme. Organizações de direitos humanos denunciaram o caso como um exemplo da censura extrema imposta pelo governo iraniano sobre artistas e cineastas. 

O roteiro acompanha Mahin, uma viúva de 70 anos que vive sozinha em Teerã e decide recomeçar sua vida amorosa após décadas de solidão. 

Ela não encontra muito com sua família que vive fora do Irã e nem com as amigas, que a criticam por não ter casado novamente.

Uma coisa muito bacana do filme é mostrar o comportamento das mulheres dentro de casa e nos locais públicos de Teerã.

Ela convida um motorista de táxi - Faramarz também nos seus setenta anos e enfretando a sua própria solidão, para sua casa, desafiando a curiosidade invasiva dos vizinhos e o filme mostra a noite que eles passam juntos, com um final surpreendente.

A química entre os protagonistas é o ponto altíssimo do filme, tornando suas interações genuínas e emocionalmente envolventes.

A fotografia é marcada por planos longos e silenciosos, que traduzem o ritmo da vida de Mahin e destacam os detalhes de sua existência cotidiana. 

Se vc gosta de filme de tiroteio e efeitos especiais, não vai gostar desse, pois a velocidade e ritmo dele são compatíveis com a idade dos personagens.  Uma reflexão sobre a vida, o amor e a resistência diante das adversidades.

A escolha estética reforça a intimidade da narrativa, permitindo ao espectador imergir no universo particular da protagonista. Cada quadro parece cuidadosamente planejado para expressar emoções que as palavras não alcançam, transformando pequenos gestos e olhares em momentos de profunda significância.

Nota 10!! Disponível em vários streamings.

Meu Bolo Favorito (2024) - IMDb














Wallace & Gromit Avengança (2024)

 

Bons roteiros e piadas é a marca registrada da Aardman. À medida que meus filhos foram crescendo vários foram entrando na dvdteca: Aardman Animations – Wikipédia, a enciclopédia livre

Produzido em parceria com a BBC e StudioCanal, o filme traz de volta os icônicos personagens em uma aventura repleta de humor, mistério e tecnologia descontrolada. 

Indicado ao #Oscar2025 de Melhor Animação.

O roteiro, dá continuidade ao curta Wallace and Gromit in The Wrong Trousers [CC] - Vídeo Dailymotion, com o retorno do pinguim vilão Feathers McGraw.

Wallace cria um gnomo inteligente interpretado pelo Reace Shearsmith de Inside #9 que, inesperadamente, desenvolve uma mente própria e começa a causar caos. Gromit tenta intervir antes que a situação saia do controle. A trama equilibra comédia e suspense, explorando temas como inteligência artificial e os perigos da automação desenfreada. 

Mantém o alto padrão da Aardman na técnica stop motion, com poucas cenas contendo computação gráfica.

Boa pedida para assistir com as crianças e se divertir também.

Nota 8, recomendo!

Assista esse e outros da coleção neste canal:

Wallace & Gromit - Avengança - Filme 2025 - Vídeo Dailymotion


 








segunda-feira, 21 de abril de 2025

Flow (2024)


Lindo filme, indicado a filme internacional e vencedor da categoria animação do #oscar2025, também no Globo de Ouro, merecidíssimo!

Nessa hashtag tem todos que comentei aqui no blog, esse ano acabei deixando por último as animações. Pode conferir também buscando "animação" na caixa de pesquisa.

Produção da Letônia, França e Bélgica, visual deslumbrante, reforçado pela ausência de diálogos. 

Temas universais como empatia e solidariedade diante das tragédias. 

Uma jornada de sobrevivência de um gato solitário que vê seu lar ser devastado por uma grande enchente, em um mundo pós-apocalíptico. Sem humanos por perto, ele precisa se unir a outros animais para enfrentar os desafios impostos pela natureza. A ausência de diálogos não limita a profundidade da história; pelo contrário, isso reforça as potências sensorial e emocional da história. 

A bela trilha sonora é um elemento fundamental na construção da atmosfera em cada cena.

Aqui no blog tem algumas animações resenhadas, principalmente as do Studio Ghibli, por exemplo O menino e a garça e O túmulo dos vagalumes, A tartaruga vermelha

Nota 8, recomendadíssimo!

Flow (2024) - IMDb

A tartaruga vermelha (2016)


Resgatando e atualizando um post breve de 2017 no Facebook para conectar com o Flow. 

Estonteantemente lindo!!! 

No meio dessas ruindades que a academia selecionou para o #Oscar2017, até destoa de tão bom. 

O Studio Ghibli FAZ o que a Disney nem sonha porque não tem competência e talento para tanto. 

Em tempos de tudo feito por computador é mais uma animação totalmente PINTADA à mão desse estúdio que só faz coisa boa. 

Roteiro e trilha sonora muito bonitos, obsessão pelos detalhes e imagens deslumbrantes! 

Nota 10!!!